Troublemaker
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❝ Há momentos em que sinto tal tristeza, tal espanto… Nesses momentos chega a parecer-me e até começo a acredita-lo, que já não poderei iniciar nenhuma vida nova, pois já por mais de uma vez tive a impressão de que perdia todo o sentimento e toda a sensibilidade para tudo quanto é realidade e vida verdadeira; porque eu me amaldiçoei a mim mesmo; porque às minhas noites fantásticas se seguem momentos de prostração que são terríveis. E para além de tudo isto acabamos por sentir que as massas humanas se agitam à nossa volta em ruidoso tropel, ouvimos e vemos como vivem as criaturas: o que se chama viver, viver de verdade e acordado, e chegamos a verificar que a nossa vida não obedece à nossa vontade, que a nossa vida não se deixa moldar como um sonho, que eternamente se renova e fica eternamente jovem, e nela nenhuma hora é igual à que se segue, enquanto a horrível fantasia, essa nossa força de imaginação, acaba por ficar desconsolada e suscetível, e monótona ate à vulgaridade, escrava das primeiras nuvenzinhas que de repente cobrem o sol e oprimem numa dor amarga o nosso coração que tanto ama esse mesmo sol. E até na própria dor, que fantasia! Sentimos que, por fim, essa mesma fantasia que parece inesgotável, há de esgotar-se na sua eterna tensão, pois nos vamos tornando mais viris e amadurecidos, e superamos os nossos antigos ideais, que se desvanecem e se reduzem a palavras e a pó. E se depois não houver outra vida, temos de nos pôr a reunir os restos desse entulho para com eles voltarmos a refazê-la. E contudo a nossa alma reclama e anseia por alguma coisa completamente diferente. E em vão o sonhador remexe nos seus antigos sonhos, como se ainda procurasse no rescaldo uma centelha, uma só, por pequena que fosse, sobre a qual pudesse soprar, e com a nova chama assim ateada aquecer o coração enregelado e voltar a despertar nele o que dantes lhe era tão querido, o que comovia a nossa alma e nos arrebatava o sangue, aquilo que fazia subir as lágrimas aos nossos olhos e que era uma ilusão tão bela.

— Fiódor Dostoiévski, Noites Brancas. (via oxigenio-dapalavra)

(Source: palaciodoexilio)

❝ Vazio peristáltico: eu não consigo sair do lugar. É a imobilidade inconsequente de quem flutua sobre sentires. Uma aplanação cósmica que pesa sobre o escolhido corpo. Meus tímpanos ficam cada vez mais distantes do cérebro, eu visualizo o túnel que o som precisa percorrer para que eu o ouça, e são baterias desgovernadas e arrítmicas, são porcarias alimentando toda uma sujeira que me tornei. O colapso do movimento se instaura no preciso momento em que respiro, e o ar inalado é uma resposta também: há vida fora da estaticidade da qual pairo. Poderia insultar todo o universo destacando o quanto destruí qualquer forma de vida que eu possuía ou chegasse a possuir, mas a lentidão com que o som demora a cursar o túnel interminável me priva de qualquer ação concreta. Formigas são mais espertas que minha consciência, elas ainda agem. Porém, eu respiro. E tal ato inerente à capacidade de existir me desloca no espaço. Corro mesmo surdo, mas corro. Olho para trás e vejo minha sombra aniquilada. Uma réstia de escuridão que ainda me acompanha, pois todas as outras ficaram ocultas nas escolhas controversas que fiz e nos sonhos que tentei materializar. Minha pele, além de protetora, é vidente dos maus presságios que a arraigam. Ela parece sentir o chão antes mesmo de tocá-lo, porque eu tombo.

— Júnior Cunha  (via oxigenio-dapalavra)

(Source: infertil)

Se eu não choro eu afogo,
apronto pra dentro de mim.
Vou morrendo em silêncio,
nem sabem que eu fico assim.
Morro na fila do banco,
no banco no fim do jardim.
Morro quando acordo cedo demais,
quando olho pro teto e vejo o vazio sem fim.
Eu morro aos finais de semana,
quando a vida gira, gira, gira.
E eu não aprendi a girar assim.
Jorge de Castro

(Source: feneceu)

beautiful-disaster-777:

Sweet dreams 💜
capekalaska:

Little boop on the nose